Quem tem peles ou garrafas para vender...?"
| Naquela aldeia aconchegada no sopé da serra da Ireira, o dia a dia era único. Durante o dia, os homens e mulheres trabalhavam no campo, as crianças iam à escola, os que tinham esse privilégio, porque a maioria, ao menor sinal de insucesso escolar, ia trabalhar com a família na faina agrícola, em tarefas menos exigentes, ou então na pastorícia -“o trabalho do menino é pouco quem não o aproveita é louco”-. Infelizmente era assim, para uma grande maioria de crianças. Cedo criavam hábitos de trabalho.
Como gostava de acompanhar a madrinha ao campo, a levar “ o quartel” (a refeição) ao pessoal que trabalhava por sua conta. Ainda hoje sente o cheiro dos alimentos, a sopa de grão e hortaliça, com enchidos e presunto, o sabor do queijo de ovelha, tipo rabaçal, que mais ninguém fazia como ela.
Ao anoitecer, no Inverno, acendiam-se cedo as luzes trémulas dos candeeiros de petróleo ou das candeias de azeite. Via-se de casa para casa a luz do fogo que ardia calmamente na lareira, cozendo a ceia, enquanto a dona da casa mantinha as portas abertas até tratar dos animais domésticos.
Depois, cada família se aconchegava à lareira esperando noite dentro pelos homens da família, que se deslocavam para outras aldeias ganhando a jorna para sustento da casa.
Á ceia, repetiam-se fantasias que a criatividade de cada um tornava sempre originais. Contavam-se histórias, qual noticiário, de ocorrências que já chegavam carregadas de imaginação tantas delas, levadas de boca em boca por comerciantes nómadas que temporariamente passavam anunciando-se: -“Quem tem peles ou garrafas para vender; “ -“Ó tia, vende ovos ou criação ” ; -“Hoje há sardinha e petinga fresca, chicharro para fritar”.
Quem não se lembra dos “sardinheiros dos Bispos”? Recordo particularmente a tia Conceição Borges do Souto, com a canastra da sardinha à cabeça, serra além, serra acima, percorrendo quilómetros a pé, ao sol, à chuva, à geada, de coluna já dobrada, mas sempre bem-humorada.
Mas a noite, lá fora, era um espectáculo que a enchia de temor e a atraia ao mesmo tempo.
Pelos vales das serras, cruzavam-se os uivos das raposas ladinas espreitando a presa nalguma capoeira e o ladrar dos cães sem tréguas que, fiéis à sua guarda, as repeliam. Bem longe diziam alguns, ouvia-se o uivo de algum lobo que ousava de quando em vez vir assaltar os rebanhos.
Na sua toca ou galho, cantava a coruja e o mocho.
Aqui ou ali cantava um galo desfasado do horário, que logo era tido como um mau presságio. “Não adivinha coisa boa - diziam –“.
Antes do deitar, dava-se a última volta aos currais e capoeiras para ver se tudo estava em ordem, quando não se fazia serão junto de alguma fêmea prestes a parir mais uma cria ou ninhada
Era um ritual emocionante, fantástico, entre todos aqueles sons da noite, entre as sombras moldadas e projectadas nas paredes das casas, pela luminosidade das estrelas ou pela luz da lua que incidia na ramagem das árvores; ou pela luz bailarina da lanterna de azeite ou do candeeiro de petróleo, nas noites de breu. cont. |
Mistérios e cumplicidades....
| .......................... Continuando a viagem pelo passado, voltando à Serra onde o Sol se esconde para os areguenses, descendo a encosta serpenteada por caminhos e socalcos encontrávamos aconchegados alguns lugarejos que se repartiam pelas freguesias de Pussos e de Maçãs de D.ª Maria. Um desses lugarejos, o Alqueidão de Maçãs, era uma povoação muito típica, situada na base da serra onde viviam os padrinhos da menina dos caracóis e onde passava uma boa parte da sua infância, onde viveu sonhos e fantasias que ainda hoje povoam a seu imaginário Era uma casa de médios agricultores, repartida entre dois irmãos: a tia Linda e o tio Zé. cujas residências apenas separadas por algumas centenas de metros quadrados, mas dentro da mesma vedação que identificava a sua origem. Eram duas figuras….vivas, de temperamentos bem diferentes. A mana sempre numa agitação contagiante, tocava as suas lides caseiras e agrícolas a todo o vapor. Ai da galinha que se atrevesse a debicar alguma das suas primorosas culturas. Logo haveria ”guerra na capoeira”... O mano, esse, com seu aspecto bem nutrido, era o oposto, a pachorra em pessoa, figura calma e, por isso, a convivência de vizinhança mantinha-se saudável para os que por lá iam crescendo e vivendo. Os respectivos cônjuges, estavam em harmonia na moldura familiar. - A tia São de um lado e o tio Daniel do outro. Eram assim como aquelas traves mestres ou estruturas centrais das construções que não se vêem quando olhamos a fachada mas que se adivinham na robustez e harmonia do edifício. O tio Daniel e a tia Linda, foram padrinhos dedicados. Na sua casa a sua presença era disputada por primos de um lado da serra e os irmãos do outro lado. É que ela foi um rebento tardio entre uma geração já casadoira. Por isso foi mimada. Eles carregando doces, elas embonecando – a. Era ver a Deolinda pregando folhos e rendas nos seus “bibes” e a Cinda passando a ferro, até que alguma brasa maldosa saía pelo respirador do ferro e ousava sujar, ou pior, queimar a peça de roupa – a electricidade ainda lá não tinha chegado - Como ela sofria para fazer seus engomados, e fazia-os como ninguém. A Dina, essa, tinha a função de encenar choradeiras de despedida da menina, quando as saudades apertavam quer de um quer do outro lado da serra, ao ponto de inventarem a figura lendária do Januário - habitante de uma das grutas a meio caminho da Serra. Ali havia uma vida muito própria, não só no aglomerado da povoação mas em cada casa. Cada família constituía um verdadeiro clã, com as suas regras próprias para dentro e para fora do agregado familiar dotando aquela gente de um temperamento e uma sociabilidade muito particulares. É curioso, e cientificamente explicável, como os grupos populacionais, a uma distância tão reduzida, entre freguesias, apenas separadas por uma serra - e essa é a explicação no tempo - tinham hábitos, linguagem (sotaque), diferente religiosidade. Ainda hoje, cada pormenor desse ambiente, como um cenário de contrastes, permanece intacto na retina e nos sentidos. Ali havia toda uma atmosfera para a criação de mitos e lendas, como a do Januário, o habitante misterioso e cúmplice de toda esta história. E, muito importante, havia felicidade. (continua)
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Horizontes da nossa imaginação!!!!
A SERRA DOS MOINHOSÉ uma das muitas e pequenas serras de Portugal, povoada por lendas e mistérios bem ao sabor da imaginação de quem por lá passou a infância. - Era assim a Serra da Ireira, dos Moinhos ou simplesmente a Serra d’Arega: Nos seus tempos de criança, a serra vestia-se de tojo e carqueja, floridos de amarelo, de sargaço cor de lilás e de urze rosa e branco. Era povoada de rebanhos e bandos de cotovias que cantavam ao desafio com os assobios e risos estridentes, de pequenos pastores nas suas brincadeiras e correrias. Há cerca de meio século, apenas se via um eucalipto aqui e ali ou um pequeno pinhal onde se amontoava a “munha” (caruma, agulha) que, periodicamente, era apanhada para queimar ou para fixar as águas nas terras de regadio. Nessa época a serra era atravessada por uma estrada de empedrado ou quase sempre de terra batida. Cruzada por pequenos caminhos ou atalhos, que ligavam entre si as povoações das freguesias que a circundavam -Arega, Pussos e Maçãs de D.ª Maria- . Eram as vias de comunicação local, onde o transporte era o de tracção animal ou bicicletas ou então as “trotinetes de pau” das crianças, feitas segundo a inspiração e engenho de cada “artista”. Raramente se via um veículo automóvel ou motorizado. Quem subisse ao topo da serra, para nascente, avistava a freguesia de Arega e, sem obstáculos, grande parte dos lugarejos da freguesia e seus limites e todo um vasto horizonte para as bandas dos Vales do Zêzere e da Rbeira d’Alge. Para poente, onde a inclinação era em muitos locais abrupta, avistava-se uma paisagem bela, cujo horizonte se perdia em qualquer direcção. Quantas Asa Delta não foram antecipados na fértil imaginação infantil. Olhando no sentido de litoral, tínhamos como fundo, a Serra de Alvaiázere, de vegetação rasteira, deixando entrever as manchas de rocha calcária. Continuando a trajectória estendia-se para as bandas de Ancião a Serra de Sicó e, completando o movimento de rotação para Noroeste lá estava integrada no maciço central a Serra da Lousã indicando a majestosa Estrela, que se adivinhava distante por detrás de neblinas. Quem quisesse, subir á Serra junto dos moinhos vivia, em tempo de estio, um espectáculo sublime. Podia desfrutar-se um cenário circundante até perder de vista, com paisagens multiformes e multicores. Ao mesmo tempo, aí se assistia ao concerto oferecido pelo vento, fazendo girar as velas do moinho, numa chiadeira- him..him..him.... - em sintonia com a rotação circular e rítmica das mós de pedra: tonc..tonc..tonc.., tonc..tonc..tonc.., que lentamente moíam o “grão”. Como a criançada gostava de visitar os moinhos dos irmãos Pires, para dar uma espreitadela ao seu interior, ver a dança das mós e ficar enfarinhado. Era uma espécie de conto de fadas. Porém, não o era, com certeza, para quem tinha que remendar as velas dos moinhos, tantas vezes destruídas pela aspereza de fortes temporais e para quem, repetidamente, semana após semana, tinha que subir e descer a serra, calcorreando veredas, para distribuir o fole da farinha aos fregueses e recolher o grão. Hoje, quando atravessamos a “Serra” que avistamos daí? Dos moinhos, nem vestígiosO cenário, esse, escondeu-se por detrás de uma densa cortina verde. Hoje, só vemos floresta e um horizonte distante na nossa imaginação. (continua) |
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