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sábado, 24 de janeiro de 2009

que saudade Manel!!!!!!

O JANUÁRIO

O Januário, figura lendária, habitante da serra, era papão e bonzinho, conforme as conveniências. Era assim:

Entre as duas aldeias, na descida da serra para a casa dos padrinhos havia uma mina (antiga nascente de água) tipo gruta, um pouco abaixo do lugar das Corgas, encravado na serra da Ireira onde (diziam) vivia o Januário.

Os sons emitidos à entrada da gruta faziam eco, eram ampliados e descaracterizados - era a voz do Januário - passatempo de quem por lá passava e, para a menina, funcionava como barreira impeditiva de algum regresso inesperado em horas de birra ou de saudades dos pais ou dos padrinhos.

Atravessar a serra sozinha é que não se atrevia porque, diziam os primos: se tu foges para tua casa, o Januário logo te apanha e não te deixa passar.... Até é capaz de por lá ficar contigo…, já aconteceu com outros “cachopitos” que foram desobedientes. Depois, os pais e a família deles ficaram tão tristes, até os encontrar... !

Nem queremos pensar nisso...!

E lá vinha uma choradeira da carpideira de serviço (Ricardina), quase sempre, bem encenada e não menos convincente.

Mas o que mais convencia a menina dos caracóis era o lado bonzinho do Januário gostava muito das crianças bem comportadas, já se sabe, e sabia recompensá - las por isso.

Vejam só: - À noite subia ao telhado da cozinha do padrinho Daniel e, quando a menina sentada no seu cantinho ou no seu joelho, às vezes já dormitando, ouvia-se um ruído e todos exclamavam: - lá vem o Januário …Xio…! Xio…! - Fazia-se silêncio, só o crepitar da lenha a arder se ouvia, e os rebuçados começavam a cair.

Uma coisa intrigava a menina, é que, o primo Manuel chegava sempre depois do Januário passar e não assistia ao mistério….

Se algum dia o sono vencia, ou o Januário se atrasava, quando todos dormiam profundamente, ele até deixava os doces no travesseiro da menina.

Que saudades do Januário!

É que o Januário foi uma figura inventada e representada. Tal e qual.... o primo Manuel que, ao regressar do trabalho, noite fora, ainda tinha a pachorra suficiente para subir ao telhado da cozinha e deixar cair sobre o colo da menina os doces que, com carinho, comprava.

Era uma espécie de ritual que todos comungavam e guardavam em silêncio.

Mas, há um tempo para tudo e a menina foi para a escola (ponto de honra de seus pais) e em sua casa ficava agora mais tempo. Só em tempo de férias ia a casa dos padrinhos. Um dia sentiu que todos estavam tristes porque o Januário também deixara de aparecer. Foi para outra terra, quem sabe? Diziam.

Na verdade só mais tarde a menina teve conhecimento de quem representava a figura do Januário, quando já era rapariguinha, porque antes, ninguém tinha coragem de lhe desvendar o mistério e de falar da sua inesperada partida. É que ele emigrou e por lá ficou…. para sempre!

Quando anos depois descia e subia a encosta da serra em visitas periódicas aos padrinhos ( “folares”, na Páscoa ou de “bolinhos”, nos Santos), ainda sonhava que um dia ao descer a serra pelos caminhos serpenteados, encontraria o Januário.

Tem final...

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