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terça-feira, 12 de maio de 2009

sábado, 24 de janeiro de 2009

que saudade Manel!!!!!!

O JANUÁRIO

O Januário, figura lendária, habitante da serra, era papão e bonzinho, conforme as conveniências. Era assim:

Entre as duas aldeias, na descida da serra para a casa dos padrinhos havia uma mina (antiga nascente de água) tipo gruta, um pouco abaixo do lugar das Corgas, encravado na serra da Ireira onde (diziam) vivia o Januário.

Os sons emitidos à entrada da gruta faziam eco, eram ampliados e descaracterizados - era a voz do Januário - passatempo de quem por lá passava e, para a menina, funcionava como barreira impeditiva de algum regresso inesperado em horas de birra ou de saudades dos pais ou dos padrinhos.

Atravessar a serra sozinha é que não se atrevia porque, diziam os primos: se tu foges para tua casa, o Januário logo te apanha e não te deixa passar.... Até é capaz de por lá ficar contigo…, já aconteceu com outros “cachopitos” que foram desobedientes. Depois, os pais e a família deles ficaram tão tristes, até os encontrar... !

Nem queremos pensar nisso...!

E lá vinha uma choradeira da carpideira de serviço (Ricardina), quase sempre, bem encenada e não menos convincente.

Mas o que mais convencia a menina dos caracóis era o lado bonzinho do Januário gostava muito das crianças bem comportadas, já se sabe, e sabia recompensá - las por isso.

Vejam só: - À noite subia ao telhado da cozinha do padrinho Daniel e, quando a menina sentada no seu cantinho ou no seu joelho, às vezes já dormitando, ouvia-se um ruído e todos exclamavam: - lá vem o Januário …Xio…! Xio…! - Fazia-se silêncio, só o crepitar da lenha a arder se ouvia, e os rebuçados começavam a cair.

Uma coisa intrigava a menina, é que, o primo Manuel chegava sempre depois do Januário passar e não assistia ao mistério….

Se algum dia o sono vencia, ou o Januário se atrasava, quando todos dormiam profundamente, ele até deixava os doces no travesseiro da menina.

Que saudades do Januário!

É que o Januário foi uma figura inventada e representada. Tal e qual.... o primo Manuel que, ao regressar do trabalho, noite fora, ainda tinha a pachorra suficiente para subir ao telhado da cozinha e deixar cair sobre o colo da menina os doces que, com carinho, comprava.

Era uma espécie de ritual que todos comungavam e guardavam em silêncio.

Mas, há um tempo para tudo e a menina foi para a escola (ponto de honra de seus pais) e em sua casa ficava agora mais tempo. Só em tempo de férias ia a casa dos padrinhos. Um dia sentiu que todos estavam tristes porque o Januário também deixara de aparecer. Foi para outra terra, quem sabe? Diziam.

Na verdade só mais tarde a menina teve conhecimento de quem representava a figura do Januário, quando já era rapariguinha, porque antes, ninguém tinha coragem de lhe desvendar o mistério e de falar da sua inesperada partida. É que ele emigrou e por lá ficou…. para sempre!

Quando anos depois descia e subia a encosta da serra em visitas periódicas aos padrinhos ( “folares”, na Páscoa ou de “bolinhos”, nos Santos), ainda sonhava que um dia ao descer a serra pelos caminhos serpenteados, encontraria o Januário.

Tem final...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

portocego : DANÇAS DA NOITE E DA MADRUGADA...!

portocego : DANÇAS DA NOITE E DA MADRUGADA...!

Quem tem peles ou garrafas para vender...?"

Naquela aldeia aconchegada no sopé da serra da Ireira, o dia a dia era único. Durante o dia, os homens e mulheres trabalhavam no campo, as crianças iam à escola, os que tinham esse privilégio, porque a maioria, ao menor sinal de insucesso escolar, ia trabalhar com a família na faina agrícola, em

tarefas menos exigentes, ou então na pastorícia -“o trabalho do menino é pouco quem não o aproveita é louco”-. Infelizmente era assim, para uma grande maioria de crianças. Cedo criavam hábitos de trabalho.

Como gostava de acompanhar a madrinha ao campo, a levar “ o quartel” (a refeição) ao pessoal que trabalhava por sua conta. Ainda hoje sente o cheiro dos alimentos, a sopa de grão e hortaliça, com enchidos e presunto, o sabor do queijo de ovelha, tipo rabaçal, que mais ninguém fazia como ela.

Ao anoitecer, no Inverno, acendiam-se cedo as luzes trémulas dos candeeiros de petróleo ou das candeias de azeite.

Via-se de casa para casa a luz do fogo que ardia calmamente na lareira, cozendo a ceia, enquanto a dona da casa mantinha as portas abertas até tratar dos animais domésticos.

Depois, cada família se aconchegava à lareira esperando noite dentro pelos homens da família, que se deslocavam para outras aldeias ganhando a jorna para sustento da casa.

Á ceia, repetiam-se fantasias que a criatividade de cada um tornava sempre originais.

Contavam-se histórias, qual noticiário, de ocorrências que já chegavam carregadas de imaginação tantas delas, levadas de boca em boca por comerciantes nómadas que temporariamente passavam anunciando-se:

-“Quem tem peles ou garrafas para vender; “

-“Ó tia, vende ovos ou criação ” ;

-“Hoje há sardinha e petinga fresca, chicharro para fritar”.

Quem não se lembra dos “sardinheiros dos Bispos”? Recordo particularmente a tia Conceição Borges do Souto, com a canastra da sardinha à cabeça, serra além, serra acima, percorrendo quilómetros a pé, ao sol, à chuva, à geada, de coluna já dobrada, mas sempre bem-humorada.

Mas a noite, lá fora, era um espectáculo que a enchia de temor e a atraia ao mesmo tempo.

Pelos vales das serras, cruzavam-se os uivos das raposas ladinas espreitando a presa nalguma capoeira e o ladrar dos cães sem tréguas que, fiéis à sua guarda, as repeliam.

Bem longe diziam alguns, ouvia-se o uivo de algum lobo que ousava de quando em vez vir assaltar os rebanhos.

Na sua toca ou galho, cantava a coruja e o mocho.

Aqui ou ali cantava um galo desfasado do horário, que logo era tido como um mau presságio. “Não adivinha coisa boa - diziam –“.

Antes do deitar, dava-se a última volta aos currais e capoeiras para ver se tudo estava em ordem, quando não se fazia serão junto de alguma fêmea prestes a parir mais uma cria ou ninhada

Era um ritual emocionante, fantástico, entre todos aqueles sons da noite, entre as sombras moldadas e projectadas nas paredes das casas, pela luminosidade das estrelas ou pela luz da lua que incidia na ramagem das árvores; ou pela luz bailarina da lanterna de azeite ou do candeeiro de petróleo, nas noites de breu.

cont.

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Mistérios e cumplicidades....

..........................

Continuando a viagem pelo passado, voltando à Serra onde o Sol se esconde para os areguenses, descendo a encosta serpenteada por caminhos e socalcos encontrávamos aconchegados alguns lugarejos que se repartiam pelas freguesias de Pussos e de Maçãs de D.ª Maria.

Um desses lugarejos, o Alqueidão de Maçãs, era uma povoação muito típica, situada na base da serra onde viviam os padrinhos da menina dos caracóis e onde passava uma boa parte da sua infância, onde viveu sonhos e fantasias que ainda hoje povoam a seu imaginário

Era uma casa de médios agricultores, repartida entre dois irmãos: a tia Linda e o tio Zé. cujas residências apenas separadas por algumas centenas de metros quadrados, mas dentro da mesma vedação que identificava a sua origem.

Eram duas figuras….vivas, de temperamentos bem diferentes.

A mana sempre numa agitação contagiante, tocava as suas lides caseiras e agrícolas a todo o vapor. Ai da galinha que se atrevesse a debicar alguma das suas primorosas culturas. Logo haveria ”guerra na capoeira”...

O mano, esse, com seu aspecto bem nutrido, era o oposto, a pachorra em pessoa, figura calma e, por isso, a convivência de vizinhança mantinha-se saudável para os que por lá iam crescendo e vivendo.

Os respectivos cônjuges, estavam em harmonia na moldura familiar. - A tia São de um lado e o tio Daniel do outro. Eram assim como aquelas traves mestres ou estruturas centrais das construções que não se vêem quando olhamos a fachada mas que se adivinham na robustez e harmonia do edifício.

O tio Daniel e a tia Linda, foram padrinhos dedicados.

Na sua casa a sua presença era disputada por primos de um lado da serra e os irmãos do outro lado. É que ela foi um rebento tardio entre uma geração já casadoira. Por isso foi mimada. Eles carregando doces, elas embonecando – a.

Era ver a Deolinda pregando folhos e rendas nos seus “bibes” e a Cinda passando a ferro, até que alguma brasa maldosa saía pelo respirador do ferro e ousava sujar, ou pior, queimar a peça de roupa – a electricidade ainda lá não tinha chegado - Como ela sofria para fazer seus engomados, e fazia-os como ninguém.

A Dina, essa, tinha a função de encenar choradeiras de despedida da menina, quando as saudades apertavam quer de um quer do outro lado da serra, ao ponto de inventarem a figura lendária do Januário - habitante de uma das grutas a meio caminho da Serra.

Ali havia uma vida muito própria, não só no aglomerado da povoação mas em cada casa. Cada família constituía um verdadeiro clã, com as suas regras próprias para dentro e para fora do agregado familiar dotando aquela gente de um temperamento e uma sociabilidade muito particulares.

É curioso, e cientificamente explicável, como os grupos populacionais, a uma distância tão reduzida, entre freguesias, apenas separadas por uma serra - e essa é a explicação no tempo - tinham hábitos, linguagem (sotaque), diferente religiosidade.

Ainda hoje, cada pormenor desse ambiente, como um cenário de contrastes, permanece intacto na retina e nos sentidos.

Ali havia toda uma atmosfera para a criação de mitos e lendas, como a do Januário, o habitante misterioso e cúmplice de toda esta história. E, muito importante, havia felicidade.

(continua)

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Horizontes da nossa imaginação!!!!

A SERRA DOS MOINHOS

É uma das muitas e pequenas serras de Portugal, povoada por lendas e mistérios bem ao sabor da imaginação de quem por lá passou a infância.

- Era assim a Serra da Ireira, dos Moinhos ou simplesmente a Serra d’Arega:

Nos seus tempos de criança, a serra vestia-se de tojo e carqueja, floridos de amarelo, de sargaço cor de lilás e de urze rosa e branco.

Era povoada de rebanhos e bandos de cotovias que cantavam ao desafio com os assobios e risos estridentes, de pequenos pastores nas suas brincadeiras e correrias.

Há cerca de meio século, apenas se via um eucalipto aqui e ali ou um pequeno pinhal onde se amontoava a “munha” (caruma, agulha) que, periodicamente, era apanhada para queimar ou para fixar as águas nas terras de regadio.

Nessa época a serra era atravessada por uma estrada de empedrado ou quase sempre de terra batida. Cruzada por pequenos caminhos ou atalhos, que ligavam entre si as povoações das freguesias que a circundavam -Arega, Pussos e Maçãs de D.ª Maria- . Eram as vias de comunicação local, onde o transporte era o de tracção animal ou bicicletas ou então as “trotinetes de pau” das crianças, feitas segundo a inspiração e engenho de cada “artista”.

Raramente se via um veículo automóvel ou motorizado.

Quem subisse ao topo da serra, para nascente, avistava a freguesia de Arega e, sem obstáculos, grande parte dos lugarejos da freguesia e seus limites e todo um vasto horizonte para as bandas dos Vales do Zêzere e da Rbeira d’Alge.

Para poente, onde a inclinação era em muitos locais abrupta, avistava-se uma paisagem bela, cujo horizonte se perdia em qualquer direcção.

Quantas Asa Delta não foram antecipados na fértil imaginação infantil.

Olhando no sentido de litoral, tínhamos como fundo, a Serra de Alvaiázere, de vegetação rasteira, deixando entrever as manchas de rocha calcária.

Continuando a trajectória estendia-se para as bandas de Ancião a Serra de Sicó e, completando o movimento de rotação para Noroeste lá estava integrada no maciço central a Serra da Lousã indicando a majestosa Estrela, que se adivinhava distante por detrás de neblinas.

Quem quisesse, subir á Serra junto dos moinhos vivia, em tempo de estio, um espectáculo sublime. Podia desfrutar-se um cenário circundante até perder de vista, com paisagens multiformes e multicores. Ao mesmo tempo, aí se assistia ao concerto oferecido pelo vento, fazendo girar as velas do moinho, numa chiadeira- him..him..him.... - em sintonia com a rotação circular e rítmica das mós de pedra: tonc..tonc..tonc.., tonc..tonc..tonc.., que lentamente moíam o “grão”.

Como a criançada gostava de visitar os moinhos dos irmãos Pires, para dar uma espreitadela ao seu interior, ver a dança das mós e ficar enfarinhado.

Era uma espécie de conto de fadas. Porém, não o era, com certeza, para quem tinha que remendar as velas dos moinhos, tantas vezes destruídas pela aspereza de fortes temporais e para quem, repetidamente, semana após semana, tinha que subir e descer a serra, calcorreando veredas, para distribuir o fole da farinha aos fregueses e recolher o grão.

Hoje, quando atravessamos a “Serra” que avistamos daí?

Dos moinhos, nem vestígiosO cenário, esse, escondeu-se por detrás de uma densa cortina verde.

Hoje, só vemos floresta e um horizonte distante na nossa imaginação.

(continua)

Saiu da cidade no dia 5 rumo à sua terra natal. Levava na mente uma ideia: passadas algumas décadas gostava de voltar a ouvir um agrupamento de "cantadores dos Reis" ou das "Janeiras", a cantar junto à sua porta, onde tantas vezes junto dos pais e mais família assistia com enlevo a tal manifestação.

Chegou à sua terra ao cair da noite. Adivinhava-se uma orvalhada forte e fria com a nevelina a pairar sobre os campos e as casas, cujas chaminés já fumegavam. Entrou em sua casa acendeu as lareiras para complementar o aquecimento da casa e preparou o jantar (a ceia) bem á moda da aldeia de seu tempo de criança, cozinhando-a no próprio fogo da lareira e numa panela de ferro.

Logo ao chegar à aldeia, tinha perguntado, se ainda se cantavam " os Reis", ao que as pessoas responderam: “às vezes ainda por aí aparecem mas, este ano, os habituas do grupo estão de luto, não é fácil que apareça alguém a cantar”.

Cozida a ceia, aconchegaram-se na mesa frente à lareira, saboreando o manjar e pensando consigo que teria que se contentar com um qualquer programa televisivo porque Reis, Janeiras, isso iria ficar adiado, para outro ano ou para outra encarnação....)

Não tinham sono, nem a saudosista, de que se fala nem o marido, citadino, a quem essas recordações de velhos tempos de aldeia, nada diziam, particularmente.

O programa na TV e o calor da lareira manteve-os acordados até tarde e, eis que, era meia noite e meia hora, toca intensamente a campainha do portão da entrada. Sobressaltados...., àquela hora, em que toda a aldeia parecia dormir, Exclamaram! Quem será? Acenderam as luzes do jardim e ouviram fora da vedação - escuro que nem breu - alguém perguntar: "Dão licença que a gente vos cantes os Reis?". Naquele instante a nossa amiga só conseguiu dizer: Damos pois....!

Ficou ali como estátua, ouvindo e recordando as quadras, a música, o som do acordeão, dos ferrinhos, do pífaro, do tambor e das castanholas, nem podia acreditar que o seu desejo estava a ser realizado. E, como cantavam bem!!! Depois, pediu ao grupo que lhe deixasse fazer uma fotografia.

Parecia uma criança! Nem deu pelo frio da madrugada! Correu para dentro de casa, com a emoção do acontecimento.

Agora, sim, já podia dormir. O sonho já se tinha cumprido.

Publicação: Wednesday, January 07, 2009 5:18 PM por portocego
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